domingo, 2 de abril de 2017

Resistir

Tendo tomado conhecimento da intenção da APA em levar por diante a construção de um muro na frente do estacionamento da praia do Cabedelo, solicitámos de imediato informação sobre o projeto preocupados com o eventual impacto sobre as ondas. Apesar de nunca nos terem confiado uma simples cópia do projeto, com a ajuda e o empenho da autarquia, que partilhou connosco o receio de eventuais impactos negativos, fomos sendo informados dos contornos da intervenção nas três reuniões tidas na ARH Centro com os técnicos responsáveis pelo projeto. 

Depressa percebemos que a tipologia de intervenção para o Cabedelo repetia a receita aplicada em 2015 a sul da Cova - que recentemente denunciámos na Comissão Parlamentar do Ambiente - reforço da raiz do molhe com obra pesada, incluindo neste caso um muro de betão e ripagem de areias na zona de rebentação para proteção da duna primária que, neste caso, seria feito através da criação de uma nova duna na frente da existente com redução significativa da área útil da praia.

Ripagem de areia na zona de rebentação a sul da Cova em 2015.

Colapso da obra pesada de defesa aderente na raiz do molhe e destruição da duna em Fevereiro de 2017.

Colapso da duna a sul da intervenção e invasão do pinhal pelo mar em Fevereiro de 2017.

Fundamentámos a nossa crítica no mau exemplo da recente obra da Cova onde a intervenção na raiz do molhe está em colapso e a ripagem acelerou o processo erosivo sobre a duna, com rutura da mesma seguida pela invasão do pinhal pelo mar. Lembrámos que a sul da praia do Cabedelo, no lugar do pinhal, temos o Hospital e a Cova-Gala cujo contexto de risco não pode ser agravado.

Manifestámos a nossa perplexidade com o desconhecimento dos técnicos quando confrontados com o desvio desta tipologia de intervenção com a inscrita no POC, oportunamente apresentado a discussão pública pela própria instituição que representam. Lembrámos que a duna que pretendem construir compromete a área útil da praia colidindo, também, com o previsto no Plano de Praia então apresentado.



Plano de Praia e descrição da tipologia de intervenção presentes a discussão pública em Dezembro de 2015.

Ficámos a perceber que, apesar do empenho da autarquia em querer levar por diante uma transferência de grande volume a partir da praia da Figueira, não existe qualquer articulação com a intervenção proposta pela APA. Conforme evidenciado em Reunião de Câmara pelo arquiteto responsável pelo projeto municipal, no âmbito do PEDU, não se compreende que aqui se inscreva o recuo da duna enquanto no projeto da APA se inscreve o seu avanço; como também não se compreende, nem é aceitável, que o mesmo muro que atenta contra o mar e estraga as ondas, possa vir servir de sustentação à reabilitação do espaço que pretendem designar como Praça do Surf. Este tipo de estruturas que se opõem ao mar, promovendo a refração da ondulação (fenómeno conhecido como onda de ressaca - backwash), para além do impacto negativo na qualidade das ondas compromete a segurança da praia de banhos para o uso balnear.


Apresentção do projeto de intervenção do município para a praia do Cabedelo na Reunião de Câmara.

Apesar da disponibilidade da APA para algumas alterações ao projeto da empreitada em curso, não podemos deixar de manifestar a nossa oposição à intervenção no Cabedelo enquanto não estiverem garantidas todas as alterações que reivindicamos. Porque não podemos contemporizar com a ameaça à praia que emprestou o nome ao movimento cívico que, desde 2009, defende a proteção costeira por via do reequilíbrio sedimentar da deriva litoral. Porque não aceitamos que a APA ignore o resultado desastroso da intervenção a sul da Cova, as recomendações do Grupo de Trabalho do Litoral e o compromisso por via da discussão pública do POC. Porque não queremos que a iluminação noturna para o surf, prevista para a praia do Cabedelo e pioneira na Europa, sirva para evidenciar o confrangedor ridículo de uma administração disfuncional: 

  • Não aceitamos a ripagem de areia na zona de rebentação, porque atenta contra a primeira defesa da costa: a duna hidráulica;
  • Não aceitamos a perda de área útil da praia, porque compromete a viabilidade do uso balnear de uma das praias mais concorridas da região;
  • Não aceitamos qualquer obra pesada que se oponha ao mar, porque frequentemente o prejuízo resultante deste tipo de intervenções é maior do que o seu benefício.

Não é só desta ameaça contra o mar que nos iremos defender. É também da ameaça a princípios básicos do estado de direito pela forma displicente como a participação da cidadania é tratada. Não podemos aceitar que promovam o debate público que inscreve as mesmas soluções que à porta fechada optam por contrariar.
Resistiremos seguros de que irão perder esta contenda. Porque ao mar, ninguém vence!

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